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ALMA TELÚRICA


*** ««»» *** ««»» *** «BOCAGE OUTRO MEU EU»! Iracema ..................... Minhas Obras Poéticas: MINHA VIDA ÉS TU ...... VENDAVAL DE EMOÇÕES Brevemente : ................... A MAGIA DAS PALAVRAS *** ... *** ... *** ... ***
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MINHAS PROSAS

A MINHA TERTÚLIA


A TERTÚLIA POÉTICA "AO ENCONTRO DE BOCAGE"


 


            Intitulada “AO ENCONTRO DE BOCAGE” é a realização de um sonho da minha juventude com o fim de apelar ao sentimento de justiça e na tentativa de elevar o Egrégio Poeta que foi Elmano Sadino, que infelizmente o povo vulgariza e aqueles que o amam e admiram não devem consentir. De seu nome Manuel Maria L’Hedois de Barbosa du Bocage, nasceu na linda vila de Setúbal, beijada pelo azul do Sado, na Rua Bartissol a 15 de Setembro de 1765. O segundo de uma família de cinco filhos que, embora fosse remediada, não lhe faltava, de modo algum, distinção social e intelectual. O pai, José Luís Soares de Barbosa, foi bacharel em Canones, trocando a toga de juiz pela de advogado; a mãe D. Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage, era filha do francês Gilbert Le Doux ( Hedous ou Hedois ) du Bocage que atingiu o posto de vice-almirante na nossa Marinha. Havia na família do grande Bocage, uma glória literária – a poetisa Madame du Bocage, casada com o seu tio avô. Nas formas arcádicas de ode, canção, cançonetas e sobretudo nos seus sonetos, vaza a turbulência da sua alma – maior poeta de oitocentos – ao sentir fugir-lhe a vida aos 40 anos, reconheceu “Meu ser evaporei na lida insana saiba morrer o que viver não soube” . Bocage, talvez um pouco por hereditariedade foi um grande poeta. Com o ambiente da época, com seus preconceitos mesquinhos e seu fanatismo farisaico, seu formalismo oco, sua mentalidade tacanha, fez dele, primeiro um revolucionário, ascendendo depois ao nível de poeta conscienciosamente insubmisso, um idealista que expressou, como nenhum outro, as aspirações políticas do seu tempo, as quais viriam impor à Nação, aquela estrutura de Estado a que se convencionou chamar Liberalismo e aquele estilo de vida, do qual o Romantismo, pré-anunciado nos seus versos, foi expressão literária e artística. E se a estreiteza do meio lhe permitisse seria um poeta muito maior mas, apesar de tudo, ainda o foi muito grande. Tal como disse Almeida Garrett – tão grande como Camões – este grande e extraordinário poeta faleceu, depois de todas as vicissitudes da vida desregrada, na Travª André Valente, em Lisboa, a vinte e um de Dezembro de 1805, com apenas 40 anos. Chegara o fim do irreverente Manuel Maria de Barbosa du Bocage, de seu nome arcádico Elmano Sadino, em homenagem ao seu pátrio Sado. E ao Vate que foi o meu ídolo desde muito pequena, talvez porque a minha família de poetas tanto o admirava, rendo-lhe as minhas humildes homenagens e compreendo em absoluto a turbulência da sua alma irreverente e inquieta e a coragem de tão bem aceitar a terrível realidade que é a morte. América Miranda - Fundadora e Presidente - N. B. - O endereço electrónico da Tertúlia é: www.tertuliabocage.blogs.sapo.pt (*) - A partir da ligação directa CONTACTOS


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DESABAFO TORMENTOSO


            Faz bem ao próximo como a ti mesmo. Que linda frase que soa melodiosamente aos ouvidos, mas impossível de cumprir, quando a indiferença, o ódio e a iniquidade vão reinando neste mundo que se apresenta aos meus olhos um poço de podridão. Sorrisos fingidos para pensarmos que somos amados e admirados quando estão cheios de torpeza e de inveja pestilenta. Então desce a noite no meu coração, escura, triste e sem luar, meus olhos estrelas sem brilho, escondem-se no fundo do meu ser, minha boca sem côr, sente-se amordaçada. Mas o poeta, esse está lá e a sua voz tem que erguer-se como um trovão para denunciar tudo aquilo que atormenta a humanidade. Fome, dor, desespero e uma terrivelmente inactiva falta de vontade de lutar por um mundo melhor. Ergue-se a voz, há greves, há protestos nas mesas dos cafés, há revolta à flor dos lábios e não no fundo da alma e assim nada se faz. Continuamos a sofrer o estigma daqueles que muito foram e nada são e dos que querem ser muito, mas só na basófia e na crueldade. A minha alma de poeta está mergulhada nas sujas águas dum fundo rio, lodacento e traiçoeiro, escondendo a beleza das límpidas águas, está só, infeliz e revoltada. Por isso quer que eu escreva, quer que eu denuncie a torpeza de uma natureza humana que não sabe impor-se à bota dos opressores. Mas é aparentemente frágil a arma com que o faço, todavia tem a força das palavras que podem entrar até através das frinchas das janelas daqueles que não querem ouvir, que não querem ver e não têm força nem ânimo para gritar «basta». Mas eu, poeta, digo, « já chega »! Já chega de comodismo, de falsidade, de cobardia, vamos erguer o pendão da fé que tudo vence, da força interior que derruba montanhas e pedir ao Único Ser, que nos guia: - Tem piedade de nós e deixa-nos mergulhar no Paraíso sonhado onde todos somos irmãos e onde impera o amor, esse sentimento verdadeiro e único, capaz de vencer todo o mal que está destruindo a humanidade! Meus sonhos de poeta alimentam a solidão da minha alma, sonhos esses que um dia, não sei quando, serão a mais linda das realidades e irão de mansinho, mergulhar nas águas claras da felicidade para acabarem com tanto tormento.


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NÃO, NÃO E NÃO !


            Neste Teatro que foi esplendoroso noutros tempos, olho em volta e sinto uma enorme desolação na minha alma. Que tristeza sem os actores a enviarem-nos o seu sorriso, quer franco, quer teatral. Entram pessoas sem olharem à beleza que as rodeia. Nos seus rostos indiferentes ressalta a angústia do dia a dia, da correria para o emprego, pela ânsia do morrer do dia para cansados chegarem a casa, fazerem o jantar e reunirem-se à volta da televisão, sem uma conversa, sem um sorriso, sem um afago. Que saudades da minha meninice, em que à volta da lareira se reunia toda a família, conversando, rindo, contando anedotas e por vezes censurando um pouco a vida de outros que despertavam a sua bisbilhotice. Sem ti, meu amor, tudo me parece mais triste, mais sórdido e mais banal, contigo a meu lado, antes de partires para um plano infinitamente superior a este onde me encontro, eu suportava melhor tudo o que me rodeava, pois nos teus braços esquecia-me daquilo que me envergonhava e entristecia. As pessoas sem educação, com modos grosseiros dominam por completo este planeta e poucos são aqueles cuja finura de modos nos encantam e nos fazem sentir que ainda somos precisos e que somos diferentes. Muitas vezes somos apelidados de doidos. Bendita loucura que nos faz diferentes e nos provoca alergia à iniquidade e podridão que vão envolvendo a Humanidade. Teatro Dona Maria II, como eu recordo teus tempos áureos, tempos de glória, de palmas, de luz e de cores. Regressa a esses tempos. Não deixes que pisem os teus palcos: actores de grande craveira mas que nos envergonham e entristecem por serem obrigados a repetirem constantemente em cena, palavrões que ferem a sensibilidade dos loucos como eu. Como eu te amo, meu Teatro, onde me encontro todas as terças feiras com poetas como eu, estudando, lendo, recitando e rindo em francas gargalhadas quando algum de nós com bom sentido de humor as provoca. E Bocage está comigo nesses dias, agradecendo-me que não o esqueça, que o ame e à sua inolvidável obra. E também paira no ar, o meu Neuzinho com o seu sorriso benevolente, dizendo: - Pára um pouco a tua luta, ninguém te agradece, podem admirar a tua força mas não passam disso. Mas ele sabe que eu não posso parar. Estou ainda a meio de uma estrada íngreme dificílima de percorrer. E tenho ainda a perigosa missão, de denunciar com a minha caneta, com a minha musa e a minha alma tudo o que está errado. Será que a paz prometida nunca mais chegará? Será que é em vão que escrevo e grito a minha revolta? Não, não e não. Este mundo não pode continuar assim. Porque se queixam as pessoas e não lutam? Porque ficam indiferentes e frios aos sofrimentos da Humanidade que está a desabar? Não encontro respostas para as minhas perguntas. Vejo sorrisos dúbios, olhos dilatados pelo ódio e pela inveja, apenas enxergo umas tantas pessoas amigas, sem maldade, que pensam como eu, mas são tão poucas, Senhor! Para onde foi a candura de uma criança, a frescura da mocidade e o amor puro e incomensurável e perfeito? Existe apenas sexo, deboche, droga, desejos mórbidos e brutais. Onde está o mundo que eu conheci, onde ? Procuro desesperada o tal caminho atapetado de flores, mas os meus pés pisam espinhos que não os magoam, mas fazem sangrar a minha alma. No meio desta multidão anónima, sinto-me terrivelmente só e todavia na minha solidão sinto-me plena com as minhas boas recordações. E assim, deixando correr a pena ao sabor do que a musa dita, fico com um grande alívio no coração, por deixar sair do meu eu, estas amargas contradições que tanto me afligem. E agora, ao olhar para o Sol que me aquece um pouco eu volto a dizer ao que está errado: - Não, não e não ! América Miranda


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SÚPLICA


            Há no ar uma música de trombetas e tambores. O céu anilado encoberto de nuvens de algodão, olha a terra banhada pelo sol ardente. Há volúpia nos corpos que se entregam ao astro solar, as mulheres passam blandiciosamente insinuantes. Há uma espécie de falsa acalmia, porque em todos os cantos do mundo, há miséria, podridão e o terror invade os corações. Por isso, Senhor, Te peço, desce até nós, salva a humanidade e perdoa-lhe por favor a inconsciência de tanto pecado. ** REVOLTA E TERNURA Vinha no autocarro completamente absorta nos meus tristes pensamentos. Sentia-me angustiada por ver a minha querida prima, com a sua perna cortada acima do joelho, vegetando e não vivendo, porque no meu entender, não é viver no estado em que se encontra, pois nem sequer tem noção absoluta do que se passa à sua volta. Recordava a sua beleza estonteante, a sua voz linda e cristalina, o seu cabelo de asa de corvo e a sua extrema simpatia. Deu a sua vida ao teatro e hoje está esquecida. Nem colegas, nem os que se diziam amigos a visitam. Vinha pedindo em silêncio ao Criador, que me perdoasse a revolta, que não me deixasse ver nas pessoas o seu interior tão desumano por vezes. Olhava à minha volta e nada via, as lágrimas da minha alma teimavam em aflorar aos meus olhos. Mas eis que se senta a meu lado, uma menina de cerca de doze anos. Às costas tinha uma sacola, nas suas mãos de adolescente levava com mil cuidados, uma linda flor, pequena e delicada. Segurava-a com tanto carinho, com tanta ternura, com delicadeza extrema e disse-me: deram-me esta flor para mim, mas vou oferecê-la à minha mãe, não quero estragá-la. A candura dos seus lindos olhos azuis, tiraram-me a revolta, fizeram-me ver as pessoas com melhores sentimentos e obrigaram-me a um gesto muito terno – afaguei-lhe os cabelos pretos e disse-lhe: que linda menina! Então minha alma rejubilou e constatei que ainda vale a pena viver quando alguém nos inspira um gesto de ternura. América Miranda ** AMOR REDENTOR Adão por sedução de Eva comeu a maçã "o fruto proibido" , pelo nosso Criador. Quão difícil é nesta vida resistirmos a um fruto proibido que se apresenta por vezes tão apetitoso. Mas o cérebro comanda a vida e muitas vezes o coração e os sentidos. Porém dessa luta tão cruel e feroz, vem um desalento enorme que arrasa o nosso ser, ser esse que sabe reagir, viver e vencer. É na renúncia que está o lado difícil da vida, é na entrega que está o prazer absoluto da carne. Carne ou espírito? Qual escolher ? O caminho mais difícil – da integridade, do dormir sem sobressaltos, da paz infinita das nossas consciências. Mas o amor pode persistir dentro das nossas almas, forma o deslumbramento, fica a afeição terna e pura para a vida inteira e essa afeição pode preencher em pleno toda a felicidade inebriante que vem da nossa alma. Amar sem esperança não é o verdadeiro amor, amar e ser amada e renunciar, é o perfume das flores que atapetam os caminhos da nossa vida. Abençoado amor que tudo redime ! América Miranda


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SONHO OU VISÃO ?


            Ela deitou-se. Era o fim de um dia de trabalho exaustivo, quer físico, quer intelectual. E esperava ter um sono repousante que a aliviasse do desgaste do quotidiano. As pálpebras cerraram-se, à volta tudo escureceu – não descansou, porque o sonho veio de mansinho e envolveu-a nas suas teias. Viu-se transformada numa bailarina envolta em diáfanos véus, saltitando de nuvem em nuvem e brincando com os arcanjos celestiais. Não queria voltar à Terra. Era tão lindo o Paraíso onde se encontrava! Verdes prados, lagos cristalinos, árvores frondosas, a bondade espalhada na irrealidade dos rostos que a saudavam. Não vou para baixo – deixem-me ficar aqui, insistia ela não querendo deixar tão magnífico lugar. De repente uma figura imponente lhe disse: - Olha para a Terra, vais ver o que em breve acontecerá à iníqua humanidade onde pertences. Então as nuvens escureceram, a Terra vomitava línguas de fogo por toda a parte e os homens fugiam aterrorizados, acobardados perante a iminência de algo que não podiam vencer. Ela lá do cimo viu a destruição da Terra, o caos, o mar a ganhar todo o terreno que lhe usurparam e gritou de novo, mas em completo pânico: - Não quero ir para baixo – deixem-me ficar aqui. Uma voz como um trovão disse-lhe: - Terás que ir, ainda não pertences aqui, fizeste uma viagem astral, mas terás que assistir la´em baixo ao que inevitavelmente sucederá. Ela gritou, apelou, revolveu-se em estranhas angústias e húmidos suores e acordou. Foi um despertar angustiante, todavia sentiu um alívio enorme ao ver-se na sua cama e muito lentamente viu que tinha saído dum sonho que lhe mostrou o bom e o mau da vida. Sonho ou visão ? Futura e estranha realidade ? Ela hoje ainda não sabe, mas algo se modificou no seu ser, iluminando-lhe o espírito e fazendo-a crer mais ainda, que acima das misérias humanas, há algo de Superior e Infinito que guia e rege as nossas vidas. Bendito sonho... ou visão !... América Miranda


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DESABAFO BOCAGIANO


            «Ai, meu Elmano !» Em 1997 formei a Tertúlia Poética "Ao Encontro de Bocage" com muito amor e sacrifício e constatei que quase ninguém falava desse Vate Imortal que foi Manuel Maria de Barbosa du Bocage. Alguns anos mais tarde voltaram a escrever-se livros sobre a sua personalidade revolucionária e irrequieta e o seu nome começou a ser mais venerado. Foi uma alegria saber que mais alguém amava o Egrégio Poeta e que a Tertúlia não foi fundada em vão. Mas, aí é que está o mal, começaram os exageros, pessoas sem quaisquer capacidades, armaram-se em conferencistas, realizadores de cinema, nem sempre foram capazes de mostrar ao grande público a verdadeira personalidade de "Manuel Maria". Sempre receei o lado negativo e os meus receios estavam certos. Os "elefantes" começaram a falar do poeta que me merece o maior respeito. E falaram dele porquê? Porque só "tocar o sino" não lhes chegava, queriam à custa do seu nome alcançar o "tal poder" que afinal é tão efémero! Vem a Parca e tudo leva e os seus nomes insignificantes ficam para sempre esquecidos e o nome de Bocage brilhará no Firmamento através dos séculos. América Miranda


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PORQUÊ ?


            Há um certo limite na capacidade de sofrer dos humanos. Muitos não resistem às horríveis vicissitudes e põem termo à vida. Porquê essa falta de força, porquê o quererem deixar o conhecido, embora mau, para buscarem o desconhecido? O que haverá para lá quando se consegue transpor o limiar da vida? Mesmo com a fé indestrutível que tenho, ao lembrar-me que perdi o meu amor eu pergunto: - Onde estás ? Consegues ver-me ? Porque não te vejo eu ? Sempre estas interrogações para as quais não encontramos resposta. Todavia, o nosso Criador, esse Ente Supremo de Luz, dá-nos, a alguns de nós, a força inexplicável para se tentar viver com um pouco de alegria, com um sorriso nos lábios. Porque existe a solidão ? Porquê, Senhor ? Porque ficámos sem os braços que nos enlaçaram, porque ficámos sem os beijos que nos deram alento e calor ? É uma vida plena de interrogações. Porquê ? Porquê ? Procurei nestes porquês tentar viver a vida o melhor possível, viver por viver, enquanto as minhas “férias” neste mundo terreno não terminarem. Quando os pássaros cantam, quando o sol nos aquece com seus raios, quando olho a lua, a chuva e até a tormenta, sei que existe Deus e pela graça infinita d’ Ele me dar a vida, até que a “dama de negro” chegue, eu Lhe estou grata. Não sou inteiramente feliz, mas cumpro a missão que me foi destinada, com força, com garra e por vezes com infinito sacrifício. A vida é um contraste terrível, a vida é paradoxal, é bela, é triste, mas é a vida que nos foi concedida. América Miranda


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LAMENTO


            A vida é um enorme complexo. Tem mais horas más do que boas se as pesarmos na balança da razão. Por um minuto de felicidade intensa, há duas horas de amargura. Por isso, durante a minha vida inteira, eu sorvi com avidez todos os momentos de inefável prazer e amor e quando surgia a adversidade tentava sacudi-la com a força telúrica que Deus me deu. E hoje, quanto me é precisa essa força que vai levantar a minha alma da enorme confusão em que se encontra. Tenho rebuscado palavras e não consigo achar aquelas que saberiam definir exactamente o estado doloroso em que se encontra o meu verdadeiro eu. Quando sorrio, minha alma chora. Quando quero estar alegre, a tristeza ensombra o meu olhar. É difícil suportar a dor da partida à nossa frente do ser idolatrado. Não sei como a minha fé resistiu a um facto que eu não deixo de considerar injusto. Perdoa-me, Senhor, mas a dor não me deixa achar natural o facto de existir uma separação que apenas unirá os seres amados na Eternidade. E quando, Senhor ? América Miranda


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À DERIVA


            Estou só no meio do ruído e da estupidez que grassa à minha volta. Rostos alvares sem expressão humana, gargalhadas sem sentido, palavrões saindo por vezes de bocas lindas, que foram feitas para beijar, para dizerem frases belas, mas não, está tudo virado do avesso, tudo tão adverso ao mundo em que fui criada, tão cheio de mimosas flores e que agora se apresenta tenebroso e cheio de cruéis dúvidas. Debato-me em angústias mil, perguntando ao meu Eu ansioso, se vale a pena viver num mundo que não parece ser meu e no qual vagueio à deriva. Sem ti, amor, nada parece real, nada me agrada e me preenche. Escrevo porque amo a poesia, declamo porque a minha voz quer gritar aos quatro ventos a beleza que vem da alma dos poetas, amo e enalteço Bocage precisamente por ele ser diferente, ser único e só um desafio como este pode amaciar a dureza que vem tomando conta do meu ser. Tem piedade, Senhor, de um coração atormentado que se debate em vagas alterosas, que quer ter paz mas só encontra solidão, tristeza e incompreensão. Que luta tremenda vai na minha alma! Será que sou feliz ? Será que o finjo ser ? Quem sou eu, afinal ? Barco à deriva no mar que só encontra porto seguro nos braços amantes e carinhosos da poesia e na fé inabalável naquele Criador que me faz pensar, nos dias de intenso sofrimento, que se tinha esquecido de mim. Vou abrir os braços à vida, ao sol, a todo o firmamento, para que os dias que me restam na terra possam ser de relativa felicidade e que eu possa levar sempre, àqueles que sofrem, um sorriso luminoso para que as suas vidas sejam menos agrestes. Senhor, ajuda-me a superar o turbilhão que vai na minha alma e a conservar para sempre a fé indestrutível que tenho em Vós. América Miranda


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DESABAFOS


            Noite quente de Verão, noite de vigília porque o sono não vem. Com as voltas e reviravoltas acode-me ao pensamento a ideia de que pouco ou nada tenho feito daquilo que queria fazer. E então pergunto-me, porquê ? Talvez porque a mão inexorável do destino não queira que vá tão longe quanto a minha força telúrica o exige. Talvez porque a força física nem sempre acompanha a força espiritual. Olho em redor – guerras, fome, desespero, dor, maldade, estupidez, doenças e a perda lenta ou rápida daqueles que fizeram parte da nossa vida e que deixaram marcas indeléveis no nosso coração. E pergunto à poeta – porque escreves ? E pergunto à mulher, porque sofres ? Porque desde menina sonho com um mundo melhor que habita na minha imaginação mas que não posso alcançar. E não alcanço porque não existe, porque o homem quer o poder nas mãos, quer ser Deus, quer dominar o mundo que pensa ilusoriamente pertencer-lhe, esquecendo em absoluto de que estamos de passagem, para uns terrivelmente dolorosa e para outros enganosamente atraente. E assim a caneta na minha mão direita desliza vertiginosamente e deixa a nu pedaços da minha alma que quase ninguém entende porque nasci para não ser entendida, nasci para ser amada e amar à minha maneira sem que alguém perceba a intensidade desse sentimento ardente e terrivelmente volúvel que preenche meu coração. Uma vez achei o amor, correspondi a esse sentimento que gravou a letras de fogo a mulher que hoje está só e que corre atrás de uma ilusão que não pode substituir nunca a realidade que a tornou imensamente feliz. Mas a inquietude da poetisa existirá sempre à busca de algo que não encontra e não a torna feliz, porque ela no fundo do seu ser não quer encontrar, porque já gosta da solidão companheira dos seus sonhos, embora essa solidão queira matar a alegria aparente e esfuziante que mostra aos que a rodeiam. Porquê, meu Deus, tanta contradição ? Porquê, meu Deus, tanta inquietude ? Porquê ? Será que eu gosto de ser como sou ? América Miranda


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GRITO DE REVOLTA


            Por muito que se goste de uma pessoa não podemos deixar de lhe notar os defeitos e alguns chocam com os nossos sentimentos e por vezes fazem esfriar a chama que está dentro de nós. Mas se observarmos, se analisarmos os nossos defeitos, talvez consigamos ceder um pouco aos defeitos dos outros. Por vezes sou um pouco intolerante e não suporto a minha intolerância, procuro no ar, no infinito, em tudo o que me rodeia, algo que não consigo encontrar, algo de oculto, sublime e indefinido que não deve existir. Por isso sou inconstante. Por isso não acho o amor com que sonho, amor que povoa os meus sonhos e não existe na realidade, porque o mundo mudou, porque os sentimentos que eram lindos estão sórdidos, angustiantes e assustadores, porque impera o interesse, a sede do poder e o subir alto mas sem capacidade para alcançar o cume. Pobre mundo, pobre Humanidade, pobres de todos nós que não conseguimos nada de nada deste universo iníquo, o que está de rastos e no fim. Vou andando ao sabor das marés, levada pelos ventos ameaçadores de mudanças para um clima insuportável para a humanidade aterrada e sem forças para lutar. Mas eu luto, luto muito, mas com a certeza de que não será em vão essa luta. Tenho a força da musa que me dita as palavras, a força telúrica da minha alma ainda apaixonada e crente de que vencerei, eu e outros poetas verdadeiros como eu, que querem mostrar aos outros, as torpezas e os enganos de que somos alvo. Não se deixem envaidecer pelo dom que Deus vos deu – empreguem-no na luta por um mundo melhor. Não deixem as palavras amordaçadas nas vossas bocas, façam como eu – gritem, mas gritem alto, não tenham receio de serem frontais, não sejam cínicos, fingidos, mostrem que os poetas são uns seres especiais e não devem atraiçoar nunca um dom que vos foi concedido. Lutem com a pena, lutem com a força da vossa alma por vezes torturada, mas fortalecida pela crença de que podem construir algo de novo que trará a felicidade àqueles que sofrem na carne o ferrete da injustiça e o amargo das maledicências daqueles mordidos pelo veneno letal da inveja de não serem como vós. América Miranda


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PROBLEMA SEM RESPOSTA


            Estamos num mundo adverso onde os sentidos imperam. O acto do amor que era tão sublime entre dois seres apaixonados, caiu agora na mais horrível degradação. É praticado o sexo, que eu agora considero animal, em qualquer canto, em qualquer lugar, com a desfaçatez de quererem que os outros vejam. Casais trocam de par. As mulheres casadas, em quem os maridos confiam, sorrateiramente e outras vezes à descarada, vão atraiçoando os mesmos com outros homens e acham isso natural. A maior parte dos maridos baixam a cabeça e aceitam e por vezes alguns são mais fiéis do que o cão, o fiel amigo do homem. Não há moral, apenas iniquidade, Tantos casos de imoralidade fruto da era que atravessamos, povoada por seres absolutamente falhos de sentimentos, sem amor, sem compaixão, cruéis e devassos. Quando olho alguém que me parece ser quase perfeito e descubro tanta perversidade nas suas acções, sinto a lâmina fria de um punhal cravado no meu peito. Será que vale a pena ser íntegro? Será que sordidez é que vence? Estas minhas perguntas quase sempre ficam sem resposta, pois penso que já não há solução para este grave problema que grassa à nossa volta!... América Miranda


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APELO AOS POETAS


            Passei no campo e admirei esta Obra imensa que é a Natureza criada pela mão do Criador. Senti-me purificada de todos os maus momentos e também dos péssimos pensamentos que às vezes afloram à minha mente. E são péssimos porque já quase não acredito na raça humana. Há meia dúzia de pessoas especiais que parecem flores tímidas no meio de tantos cardos à sua volta, mas há tanta maldade, tanta corrupção, tanto ódio, tanta violência sem fim. Porquê, pergunto eu à minh’ alma de poeta, tão sensível e tão desolada e ela na sua fragilidade não me sabe responder. Interrogações atrás de interrogações e as respostas pairam no ar perdidas no azul do Firmamento que olha a terra com tristeza infinda por tanta destruição e por tanta ofensa àquilo que Jesus pregou. Poetas, não deveis ficar parados. Lutai com a caneta, vossa espada, por um mundo melhor, um mundo que quereis, tal como eu, que seja infinitamente diferente onde possa reinar toda a beleza que a poesia encerra e toda a nobreza que vem da vossa alma e da vossa inspiração. Nada de egoísmos, nada de falsidade, apenas sorrisos que possam amenizar a tristeza daqueles que não têm como nós uma âncora para se agarrarem e para se salvarem do naufrágio, das ondas encapeladas e turbulentas deste mar imenso que é a vida. Isto é um apelo, é um grito d’ alma que pretende achar guarida nos vossos corações. América Miranda


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SEMPRE A LUTAR


            No rescaldo de um sentimento, que julgamos ser amor, aprende-se lentamente a lidar com a vida, a combater as suas fatalidades e a distinguirmos a diferença dos sentimentos que nem sempre conseguimos entender. Vê-se o ser humano com outros olhos e aprendemos a lidar com os nossos semelhantes com uma certa diplomacia, a que sou adversa, pois ela é sinónimo de cinismo. Quando desejo ardentemente uma coisa eu luto por ela, mas se deixo de a desejar deixo-a indiferentemente escapar-me das mãos. A minha primavera da vida foi plenamente preenchida de mimosas flores, o meu outono já mais triste, teve caudal de lágrimas como folhas caídas das árvores que também choram. Todavia sinto-me quase realizada, embora a minha natural inconstância, não me deixe saber bem o que quero. Mas, quando ao raiar da aurora, meus olhos saúdam o Firmamento, eu sinto uma força vulcânica que me dita o que fazer e como fazer e vou conseguindo afinal tudo aquilo que ansiosamente pretendo. Tenho levado uma vida inteira a lutar com muita garra, sem esmorecimento e ás vezes não sei porque luto , sei apenas que gosto de vencer as vicissitudes que a vida me apresenta. E luto por um mundo melhor, luto por aquilo em que acredito, luto para encontrar algo que não existe senão na minha imaginação e luto porque sem luta não saberia viver. América Miranda


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ASSIM VÃO OS TEMPOS


            Nesta vida tudo está mudado. O tempo, as pessoas e os animais. Numa humanidade que pisa escandalosamente as mais elementares regras de moral, tudo tem que estar feio, doloroso e alterado. E quem foi criado em berços de deliciosas rendas, com educação primorosa e mimos delicados, sente na carne um punhal doloroso e uma ferida latente que lhe dilacera o peito. Tenho saudades da minha mocidade, não por ser mais jovem, mas porque os tempos eram outros. Embora com regras demasiado severas para as mulheres, respirava-se pureza e candura. Agora os ares estão toldados por ventos iníquos, por correntes e vagas alterosas e por mulheres demasiado provocantes que não sabem o significado maravilhoso dessa palavra mulher . Os homens, alguns, demasiado brandos, deixando-se pisar na tão sua apregoada masculinidade. Amor é repartir, amar é respeitar, amor é um sentimento sagrado quase impossível de se definir, mas ainda capaz de salvar este mundo de tanta podridão. Poder, corrupção, matar para ocupar lugares de relevo. Pergunto eu, para quê? Para um dia ela chegar com o seu abraço negro e varrer da face da terra aqueles que já têm o seu dia marcado. Tanta luta, tanto ódio, tanta malvadez para nada afinal. Após a partida só o amor fica nos corações daqueles que muito amaram, porque enquanto a imagem do ente querido morar no nosso peito, esse ente só desaparecerá fisicamente, mas a irrealidade da sua presença andará a pairar no ar. Vou escrevendo e desabafando para o papel fragmentos do que me vai na alma e talvez assim este grito abafado possa entrar dentro daqueles seres que já não sabem o que é ter coração. América Miranda


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LÁGRIMA CAÍDA


             Uma lágrima caída num rosto triste enrugado é uma pérola perdida num tão perdido passado. América Miranda


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SOU COMO SOU


            Muitas vezes acordo a pensar nas voltas que a vida dá, nos momentos felizes por vezes tão efémeros e nas tragédias, desgostos e surpresas que ela nos proporciona. Se a analisarmos friamente, sem qualquer emoção, conseguimos ver porque ela é assim mesmo. Temos, ao nascer, um destino marcado, um trilho que temos que seguir, muito embora o possamos tentar desviar para que melhore um pouco. Há coisas, no decorrer dos anos, as quais nós avidamente as tomamos em nossas mãos e outras das quais nos queremos afastar e não conseguimos. É esta luta constante, entre o melhor e o pior, que torna a vida mais aliciante. O casamento, quando feliz, é a união mais maravilhosa entre dois seres que se amam, mas a traição a esse amor a que as pessoas se entregam, é uma chaga aberta e insuportável que jamais sai dos corações. E a traição de alguém que julgamos ser amigo, como é dolorosa, como é frustrante! No amor grandioso que senti nunca existiu perfídia, mas sim uma doce e melodiosa harmonia. Nas amizades já senti o gume da cilada, o punhal do inesperado e então preferi os inimigos aos falsos amigos. Odiei a minha ingenuidade ao não perceber o falsear de amigos fingidos que na mão direita pareciam ter o afecto e na esquerda a arma branca perfurante... Mesmo assim não deixei de amar a vida e tentei heroicamente sobreviver à sua parte negativa e sinto-me feliz por não me deixar derrubar por sentimentos baixos e avaros. E até na solidão não estou só. No meu coração existe alguém que apenas desapareceu fisicamente, mas não morreu porque nunca é esquecido. E, nas horas mais amargas, peço auxílio a essa recordação, peço auxílio ao meu bom Jesus e consigo superar as amarguras da saudade e dizer-me: vai para a frente, sempre vencerás as lisonjas e o servilismo traiçoeiros e serás tu como sempre foste – menina-mulher – com um coração que se envergonha de se mostrar como é! Obrigada ao Criador por ser como sou e, se morresse e voltasse a renascer, gostaria de ser de novo a mesma mulher. América Miranda 


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FRASES À SOLTA


             A Natureza em meu redor, o lago verde onde nadam patos, cisnes e peixes, o sino da Basílica com os seus acordes, trazem tranquilidade ao meu espírito necessitado de ver beleza e esquecer toda a fealdade da raça humana. Conversas sem sentido à minha volta, mulheres desnudadas exibindo, por vezes, o que deveria estar tapado, pois não é agradável à vista. Desleixo no trajar, provocação de pessoas que não sabem o que é charme, homens especados abanando as cabeças em ar de censura. Mas homens de outros tempos que devem ter saudades da feminilidade e a graça das mulheres de outrora. Ainda há lindas raparigas, elegantes, charmosas e que são um regalo para a vista de qualquer pessoa que ame a beleza. Homens também lindos, também com charme, mas alguns sem a característica do chamado “macho latino”, com vozes aflautadas e gestos amaneirados por vezes parecendo ser o que não são. Como tenho saudades de ver homens que eram homens cem por cento, embora por vezes abusassem do poder da sua força masculina, o que era terrivelmente deprimente para o sexo feminino. Neptuno vai lançando água para o lago verde com a sua cara dura como convém a certos deuses. Os patos nadam e brigam, nem estes têm paz entre si. Mas se eu quiser ficar só, não vejo nada à minha volta e a tranquilidade surge e sinto nos meus ouvidos cansados música clássica que me inebria a alma e dulcifica o coração... Sou feliz quando me entrego ao prazer de ver só o bem e ignorar o mal e sou ditosa porque é urgente saber amar, sobretudo os nossos inimigos! América Miranda


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RETALHOS D’ ALMA


             Nesta larga e soalheira varanda do meu quarto, n.º 407 – 4.º andar do Hotel das Termas de São Pedro do Sul, grande Hotel de Lisboa, vejo o maravilhoso arvoredo e o sussurro das águas do Vouga que cicia ao meu ouvido a felicidade de estar em contacto com a Natureza. Consegui acalmar um pouco o meu sistema nervoso e sorvi as coisas belas que me inebriam os sentidos e afagam a alma. Conheci gente interessante, alguns muito diferentes de mim, mas soube aceitá-los como são. Outros na sua simplicidade conseguem dar-nos lições de vida. Silêncio que bálsamo para o meu coração! Noite estrelada e lua magnífica que me fazem sentir mais perto de Deus! Como eu gostaria, amor, que ainda estivesses perto de mim fisicamente, mas no meu coração e na minha mente estás sempre presente. Como sinto a tua falta! O nunca mais aterroriza! Por vezes imagino-te nadando no rio, vejo-te no cume do arvoredo, sonho contigo neste quente dia de Verão e o teu rosto surge no azul límpido do céu. Que ilusão que me acalenta a alma ! Contemplo extasiada a toda a hora este espectáculo magnífico da Natureza, com o peito arquejante e os lábios entreabertos para absorver a aragem deliciosa que me vitaliza. As flores que nos rodeiam parecem atapetar de magia os caminhos da minha vida. De vez em quando sinto-me alquebrada com a luta travada no meu espírito e com a dor avivada na minha alma, mas vem a tranquilidade reanimar-me e a pouco e pouco, desaparecem os últimos vestígios da dor e as radiosas miragens confortam mais meu coração. Ao lembrar a família e os amigos sinceros, e não os que fingem ser, estampa-se no meu rosto e no meu olhar uma expressão de melancólica ternura. Este silêncio aproxima-me do Criador, olho o anilado do Firmamento e agradeço-lhe com toda a minha fé as coisas lindas que a vida me proporciona. Por hoje termino com a alma embriagada por tanta beleza. América Miranda


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AINDA EM SÃO PEDRO


             Desceu a noite e caiu uma chuva forte e constante, enlameando os caminhos e dando às folhagens uma tonalidade brilhante e cheia de frescura, que é um encanto ver-se. Os telhados das casas cintilam agora aos raios dum sol ainda tímido e as plantas cobertas de gotas de orvalho lembram-me pérolas irisadas. Que quadro admirável! Quando o sol na sua despedida nos deixa sem seu calor, a noite vem e envolve com o seu negro manto o arvoredo silencioso e o céu toldado de nuvens, deixa por vezes ver algumas estrelas que cortam a escuridão com os seus longínquos e vacilantes lampejos. Os dias são como a vida, por vezes mar de negrume e de tristeza, cortada a longos espaços por carinhosas ondinas de ventura e orvalhada pela existência fora, com o bálsamo odorante do Céu. América Miranda


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VÉSPERA DA PARTIDA DE SÃO PEDRO


            Amo-te tanto meu Vouga tranquilo que vou recordar-te a todas as horas e a todo o instante. Pela tranquilidade que me deste, pelo teu suave e refrescante contacto com as minhas mãos um pouco febris. Ondina parece pairar sobre o verdejante arvoredo e deita lágrimas de saudade por eu deixar este recanto paradisíaco. O céu hoje um pouco plúmbeo também parece despedir-se de mim com saudade, porque toda a Natureza sabe quanto eu a amo, quanto fui feliz nos passeios, sobretudo nos solitários, que dei pelos seus carreiros mágicos e pelas suas áleas frondosas. Aqui senti-me mais perto do Criador, aqui esqueci as falsas amizades, esqueci as ambições daqueles que fingem ser amigos com o intuito de chegarem onde eu, sem vaidade e sem pisar ninguém, já cheguei. Tudo é efémero, vaidades, ambições, poderes, falsas promessas. Aqui num recanto tão longe do mundo falso e cruel, sou eu, a verdadeira mulher que, embora perdoando, despreza as falsidades. Prometo-te Vouga, meu amante silencioso, que hei-de voltar e terei de novo contigo largas conversas que só nós entendemos. Roga, comigo, ao Criador para que eu volte e que possa beijar de novo tuas águas esverdeadas. Silêncio tão especial como vou ter saudades! Varanda grande, onde o sol acariciou o meu corpo, como te vou recordar! E vou recordar com ternura toda a gente que conheci e me acarinhou e que eu aprendi a amar. América Miranda


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DESENCANTO


             Por América Miranda Analisando as facetas da nossa existência e recordando os nossos tempos idos temos que admitir que a nossa passagem nesta vida é um trilho quase impossível de transpor. A fé, a nossa força interior, o nosso desejo de vencer o mal, ainda nos ajuda a transpor o que nos parece intransponível. O amor verdadeiro, puro, já quase não existe. Há o desejo normal, animalesco, que substitui aquele desejo lindo que havia entre os seres que se amavam. A ternura do homem na exploração do corpo feminino, amado e desejado, aquele secretismo e cumplicidade erótica que existia entre duas pessoas a sós na sua intimidade, não é o mesmo. Agora, há demonstração na rua daquilo que não chega a existir verdadeiramente nas relações íntimas. Existem ainda pessoas um pouco fora do comum que são consideradas “botas de elástico” e se amam a poesia são apelidadas de loucas. Vou na rua vagueando e analisando o que se passa à minha volta. Que vejo? Mais miséria, podridão, lixo humano e de consumo misturados numa dança fantasmagórica que arrepia. Mas como sou poetisa, como tenho uma alma sonhadora e romântica, sonho acordada com um mundo cheio de coisas maravilhosas quase impossíveis de alcançar. Mas porquê ficar impotente e nada fazer? Porquê não usar a caneta que tem o poder de uma arma mortífera? Porquê não ferir os que nos ferem com a palavra sardónica tão veloz como uma bala certeira? Será falta de coragem ou desalento? Será fragilidade? Podemos reprovar mas temos que combater esse temor maligno que se agrava progressivamente e vem tomando conta da Humanidade – o desespero, a fome, a doença, a inveja, o terror, o desencanto, a malvadez e o uso abusivo dos mais fracos! Esta prosa não tem poesia, porque a poesia seria maculada com tanta iniquidade, mas tem um grito de revolta misturado com laivos de esperança e força para lutar! América Miranda


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CARNE VERSUS ESPÍRITO


            Adão por sedução de Eva comeu a maçã "o fruto proibido" , pelo nosso Criador. Quão difícil é nesta vida resistirmos a um fruto proibido que se apresenta por vezes tão apetitoso. Mas o cérebro comanda a vida e muitas vezes o coração e os sentidos. Porém dessa luta tão cruel e feroz, vem um desalento enorme que arrasa o nosso ser, ser esse que sabe reagir, viver e vencer. É na renúncia que está o lado difícil da vida, é na entrega que está o prazer absoluto da carne. Carne ou espírito? Qual escolher? O caminho mais difícil – da integridade, do dormir sem sobressaltos, da paz infinita das nossas consciências. Mas o amor pode persistir dentro das nossas almas, forma o deslumbramento, fica a afeição terna e pura para a vida inteira e essa afeição pode preencher em pleno toda a felicidade inebriante que vem da nossa alma. Amar sem esperança não é o verdadeiro amor, amar e ser amada e renunciar, é o perfume das flores que atapetam os caminhos da nossa vida. Abençoado amor que tudo redime !


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ABENÇOADO SONHO


            Como imagens cinematográficas e durante um sonho voluptuoso passa   ram no ecran da minha vida, ilusões não realizadas. Senti-me valsar nos braços fortes e viris do Clark Gable, o meu ídolo desde menina, flirtei com Sean Connery e vi-me envolvida na auréola mágica da Meca do cinema. Dancei, rodopiei com o Fred Astaire, o mágico da dança, meus olhos ficaram presos na magia do olhar de Rock Hudson e fui feliz num sonho que não realizei mas que vivi apaixonadamente. É bom sonhar quando o destino nos marcou um trilho diferente daquele que ansiávamos, porque o sonho sempre comandou a nossa existência. Sonhar com um mundo tão inacessível para nós, mas que o sonho nos trouxe de bandeja para os nossos braços, é uma irrealidade tão real que há sufoco no nosso peito, cansado de desilusões que nos surgem pela vida fora. A Meca do cinema, que ilusão! Tudo parece tão dourado e quantos corações destroçados, amargurados e desiludidos! Mas... não, esta noite eu estive lá, esta noite absorvi por inteiro a mágica que havia no ar. O negro lindo e profundo do olhar do Omar Sharif parecia incutir em mim o estranho mistério da sua terra natal, mulheres lindas, estonteantes, provocadoras, formavam uma realidade irreal, porque este mundo tão conturbado já não tem beleza, mas o sonho esse estava lá e fez-me ver coisas que desde a infância me deslumbravam e me ajudaram a deitar para o papel a irrealidade tão real e a realidade tão irreal... Acordei, não sabia onde estava e quis ficar presa do sonho para que a felicidade perdurasse. Estou bem acordada, mas feliz por ser intérprete de um sonho tão real que, ao recordá-lo, me vai ajudar a enfrentar todas as vicissitudes que a vida ainda lhe aprouver trazer-me. Abençoado sonho !


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MULHER CORAGEM


            Deambulando pela cidade, naquelas voltas que gosto de dar completamente sozinha e alheada da multidão à minha volta, entrei num autocarro e fui observando todos os gestos e atitudes dos passageiros. Uns com caras de preocupação, outros com esgares de indiferença, porque a vida não está boa para ninguém. Ao meu lado sentou-se uma bonita senhora dos seus quarenta anos e não tendo eu vontade de falar, sem querer e quase sem dar por isso, entabulámos conversação. Primeiro as banalidades de sempre que tanto me aborrecem, mas depois vi que estava ali uma mulher inteligente, mas profundamente infeliz. Saímos do autocarro e perguntou-me: - Vai passear, importa-se que a acompanhe? Eu, embora ligeiramente contrariada, disse-lhe: - Pode, porque não? Sentámo-nos num banco debaixo de uma árvore frondosa e ela desabafou e pediu-me que ouvisse a sua história. Casou com um homem extremamente ciumento que quase não a deixava olhar senão para ele. Deixou o emprego para se dedicar àquele que, embora amando-a a seu modo, não merecia o seu amor. Foram anos de ciúmes infundados, maus tratos físicos e psicológicos. Chegava a fazer-lhe nódoas negras para no outro dia lhe perguntar: - Quem te fez isto? Vinha depois a brutalidade misturada com beijos que aos olhos dela se tornaram asquerosos. Começou a notar que o amor que sentia por aquele homem tinha chegado ao fim. Que dilema para uma mulher nova, bonita e apetecível ! Ainda suportou dez anos de uma vida horrível entre a casa e o hospital onde se ia curar dos maus tratos. Deixou a casa – sem emprego e sem nada pensou acabar com a vida – mas a existência nem sempre é madrasta. Uma senhora idosa que foi amiga de sua mãe recolheu-a, ajudou-a e ela conseguiu emprego. Todavia, durante largos anos andava atormentada e assustada, pois receava a vingança daquele que nunca se conformou com o ter sido posto de lado. Só quando ela soube que ele arranjou outra mulher, embora temendo pela outra, respirou fundo. Hoje é mãe solteira por opção, não acredita em absoluto no amor que o pai da filha diz dedicar-lhe. Têm um relacionamento sexual, saem juntos, mas a ajudar mulheres perdidas e as maltratadas e espezinhadas. Que coragem e exemplo o dessa mulher! Admirei-a imenso e muito por alto resolvi, com seu consentimento, relatar a história duma mulher que, tal como eu, entrou no autocarro, mas só tem quarenta anos e uma larga, triste e dolorosa experiência de vida. Que a sua vida mude para melhor, que naqueles lindos olhos cor de mar, não apareçam mais lençóis de água cristalina. E assim, percorrendo a cidade sem destino, fui encontrar alguém que confiou em mim e ao abrir-me a sua alma se sentiu liberta das sombras do passado. Gostei dela, admirei-a e acho que, sem dúvida nenhuma, ela é digna do nome de «mulher coragem». América Miranda


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FÉRIAS INÉDITAS


            Crónica de América Miranda Três amiga meteram-se no autocarro da Rede Expresso a caminho de férias bem merecidas junto das mansas águas do rio Vouga. Durante a viagem houve poesias, anedotas, só faltando dançar porque o balancear do autocarro não permitia. Os dois condutores, sobretudo o primeiro, pleno de simpatia e juventude, não ficava atrás dos irrequietismos das passageiras nomeadamente da “comandante”. Em Coimbra entrou novo condutor que ficou preso sem reservas à alegria dos passageiros. As paisagens lindas encheram de magia todos os corações. Ao chegarmos uma das amigas ficou apavorada com a altura dos degraus do autocarro e estacou, mas logo o condutor “um pedaço de mau caminho” como dizem os nossos jovens a agarrou ao colo pousando-a suavemente no chão e ela retribuiu a amabilidade com uma carícia no seu rosto, para inveja das passageiras mais novas. Com a amabilidade habitual, os empregados do hotel levaram as malas para os nossos quartos. Primeira confusão, quartos trocados. A que era para o primeiro andar ficou instalada no quarto andar, muito perto da narradora desta “odisseia”. A outra, que queria ficar no quarto andar, amuou por ir para o primeiro. Mas passou. O que interessava era desarrumar as malas e saborearmos o ansiado jantar. Quando a “comandante” entrou na sala foi um raio de sol para outros hóspedes mergulhados em tristeza, só falando em doenças. Uma das amigas, que infelizmente é diabética, ignorando os nossos conselhos, começou a deliciar-se com todos os magníficos doces do hotel – que aventura perigosa… Claro que o facto de uma amiga ter voado nos braços do condutor foi durante as férias motivo de irónicas brincadeiras. Conhecemos pessoas muito interessantes, cultas, apreciadoras de poesia e uma delas declamava intensamente, deliciando as suas amigas de Lisboa. Apesar de ser tão vibrante a amiga mais atrevida desta história gostava de tomar banhos de sol na varanda e ter longas conversas a sós com o rio Vouga, que ela sempre considerou seu amante silencioso. Uma adorava a piscina, a outra o sossego, e esta fez longas caminhadas a pé e sozinha, porque também tem os seus momentos que adora estar só. Num desses passeios, no dia em que chegou uma excursão, houve um facto que parece ser ficção, mas não é. Um homem perdidamente embriagado deixou cair ao rio um garrafão cheio de vinho. Não se atrapalhou, deitou-se decididamente ao Vouga para salvar aquele néctar dos deuses. Não sabia nadar, mas gritava. – Eu sou bombeiro, sei nadar, quero o meu garrafão. E ia de cabeça ao fundo, perigosamente. O lado cómico virava tragédia se uma senhora não atirasse um tronco ao “bombeiro” para se salvar. Ele agradeceu mas suspirou de tristeza por perder o seu garrafão. Voltando aos nossos conhecimentos foram todos de uma amabilidade extrema, passeando connosco nos seus carros e ficou uma amizade que parece ser duradoura. Havia um casal do Porto, simpatiquíssimo, que na sua estranha linguagem deitou para o ar a palavra “parreca”. Procurei no dicionário mas nem sequer esta palavra é uma corruptela da língua e cheguei à conclusão que é uma frase característica das gentes nortenhas, por sinal amabilíssimas e de uma franqueza extraordinária. Foram dias festivos. A ”comandante” conseguiu arrancar um sorriso ao sisudo chefe de mesa que, até virmos embora, nunca mais deixou de mostrar os seus alvos dentes. Dançou-se o flamengo e houve todos os dias alegria no ar. Houve também lágrimas nos olhos dos que ficaram, abraçando com efusão as que partiram e que foram heroínas desta história. No regresso a casa já não houve alegria no autocarro, o condutor guiava mal e era antipático, mas o pior foi a nossa amiga que devorou os doces, sem poder, sentir-se muito mal deitando para um saco de plástico tudo o que comera provocando vómitos nos outros passageiros. A “comandante” ao ver a cor horrível do rosto da amiga pediu ao condutor para parar. – Não posso parar senão em Coimbra, sente-se senão cai! … e continuou. Quando, em aflição, a “comandante” disse que a amiga era diabética, levantou-se uma bombeira, de tenra idade, que lhe acudiu. Injectando-lhe insulina conseguiu que a diabetes descesse de 350 para 140. Pensei que ficaríamos essa noite em Coimbra para acompanhar a nossa amiga. Mas não, a tragédia passou. Chegámos a Lisboa cansadas, um pouco assustadas com o que poderia ter acontecido… Mas, voltando atrás, há uma passagem que quero frisar : o nosso passeio a Aveiro. Quando entrámos na casa dos ovos moles vimos uma autêntica “estátua grega”, um lindíssimo e viril rapaz dos seus vinte e quatro anos. A nossa “comandante”, sempre bem disposta e atrevida, disse-lhe: - Se eu tivesse a sua idade já não saía desta loja! Risota geral com o enleio do jovem. No regresso ao hotel, havia na mesa ao lado uma “estátua de ébano” que, ao ouvir a história sorriu, tendo a nossa amiga dito: - Não se ria, você também é giro! Teria os seus trinta anos e a companheira, a quem ele afagava as mãos, os seus sessenta e eram “namorados”. Como a brincalhona desta história já não é jovem, permite-se a estas franquezas e, como artista que é, admira a beleza. Mas, no seu Outono da vida, despertou cá e lá “algumas paixões” e, para não ser demasiado franca e indiscreta, vou chegar ao fim de mais uma história verídica.


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AINDA O JARDIM TROPICAL


            Que tranquilidade! Que paz! Aqui, longe do mundo, esqueço que lá fora reina o desassossego, a confusão. Por vezes não sei definir o que me vai na alma quando os meus olhos abrangem tanta beleza. Como gostava de viver aqui, ter uma pequena casa, dormir e andar com este silêncio que dá vigor, saúde física e mental. Árvores seculares e de variadas espécies, palmeiras misturando-se e formando um cortejo nupcial. Não consigo despir-me deste romantismo, do anseio profundo de passear livremente, sem medos e sem angústias. Aqui, sinto-me muito bem, estou só e nem vejo as raras pessoas que andam por aí passeando e fotografando para mostrar lá fora o quão lindos são os recantos deste rincão à beira-mar plantado. Eu amo a Natureza e cada vez creio mais na obra divina do Criador. Só Ele pode criar esta beleza incomparável que me rodeia. Patos confraternizando com os seres considerados racionais, como irracionais conseguem ser melhores! Ninguém os ensina, todavia estes deste jardim maravilha, acercam-se de nós sem receio. Como confiam, ignorando a torpeza e a maldade humanas! O sol abrasador, por vezes um pouco envergonhado, espreita pelas árvores e vem acariciar o meu corpo sedento do seu calor. Astro escaldante e vibrante como a minh’ alma! Todavia também gosto de namorar a lua no céu estrelado que me dá a calma que se segue à excitação dos quentes dias e namoro o Firmamento pedindo que reforce a força telúrica que me anima. Vou pousar a caneta e descansar a mão para poder, em silêncio e de olhos fechados, absorver todo o encanto que me rodeia e fascina. Obrigada, Senhor, por tudo o que me dás, quer sofrimentos, quer alegrias. São sempre bem-vindos pois vêm da Tua infinita e misericordiosa Mão!


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DIVAGANDO EM PROSA


            Após o meu nascimento parecem ter decorrido séculos e muitas primaveras, verões, outonos e invernos, passaram ante os meus olhos por vezes admirados, assustados ou incrédulos. E com o tempo nesta frenética e louca correria a passar por mim, já sou bisavó. Como recordo a minha infância de mimosas flores, quando me revejo nos olhos luminosos do meu neto mais pequeno, o Guilherme e do meu bisneto o Miguel. É uma alegria ver a sua inteligência, as suas traquinices e a sua natural alegria de viver que herdaram de mim. Como lamento que o tronco principal desta árvore genealógica não esteja a meu lado, com o seu sorriso maravilhoso, desfrutando em conjunto todas estas alegrias que nos enchem a alma. Sei que és hoje mais uma estrela no céu e que, lá do cimo, vês-nos a todos e velas por nós. Que saudades, amor! Muitos vendavais após a tua partida, têm tentado derrubar este sentimento lindo que ainda existe no meu coração, mas sopram apenas e não conseguem derrubar o outro tronco forte desta arvora que não se verga aos temporais. Não sei onde vou buscar a força, talvez à fé indestrutível que tenho no Criador e à recordação de um amor que me tornou tão ditosa. Tempo, como passas depressa. Mas como me compensas quando olho com ternura a minha família e quando a inspiração surge e dito ao papel o que me vai na alma e quando piso com amor, com deleite e erotismo, as tábuas do palco que eu tanto amo. Queixar-me das agruras da vida, quando tenho tantos deleites? Perdoa-me, Senhor, mas tenho momentos em que a minha força vacila, embora apenas por instantes, para surgir depois uma energia telúrica que vence todas as adversidades. Essa força vem de Vós e da herança maravilhosa e do amor sem limites que meus pais me legaram. América Miranda


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DESABAFANDO
 
                                                                       América Miranda
 
            Que lindo é ver o nascer do sol, apreciar a luminosidade ímpar da nossa maravilhosa Lisboa.
Se a angústia se apossa do nosso ser e a ansiedade, sinónimo absoluto do medo, ao olharmos o céu, sentimos dentro de nós, esta obra magnífica que é a Natureza, vinda do maior pintor, d’ Aquele que cria, d’ Aquele que nos impõe a Sua vontade – o Criador.
E é n’ Ele que eu confio quando a coragem vacila e é a Ele e só a Ele que conto todas as fraquezas e talvez cobardias que por momentos assolam o meu espírito forte mas que também fraqueja.
A vida quando nos prega partidas, nunca são em vão, pois “quando se fecha uma porta, logo se abre uma janela” e quando as vicissitudes passam e quando um sorriso aflora nos nossos lábios, esquecemos todo o mal e absorvemos com prazer e delícia o quanto é bom olharmos o sol, mergulharmos o olhar no Firmamento e deixarmos que o mar acaricie o nosso corpo.
Meu Deus, como é bom crer em Vós!
 
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DEAMBULANDO ENTRE O SONHO E A REALIDADE
           
                                                                       América Miranda
 
             Completamente envolvida na chama do sol incandescente que beija a nossa linda Lisboa, saí de casa para tentar refrescar o corpo escaldante junto do fresco das árvores do Jardim da Estrela.
O autocarro 773, pequenino e gingão, deu tantos pulos que, embora fortemente agarrada, ia batendo com a cabeça no tejadilho. Mas isto faz parte do nosso quotidiano e quem tiver sentido de humor de tudo faz graça, até da própria infelicidade.
Cheguei ao Jardim, havia um ar pesado e de abandono na tristeza que achei em tudo o que faz parte do mesmo.
O nosso Antero de Quental continua fortemente vandalizado e eu pareceu-me ler no seu olhar um desprezo infinito pelos autores da façanha. Pobre poeta que se suicidou e que embora no assento etéreo ainda não deixa de sofrer. Lindo recanto aquele onde está a sua estátua, bancos que me trazem recordações de amizades efémeras que se perderam no tempo e se quiseram transformar em algo que eu não queria ter.
Homens e mulheres tristemente sós nos bancos, também pouco tratados, e nos seus olhos havia amargura, saudades e mudas queixas. Mães, pais e crianças sentados na relva que rodeia a estátua de João de Deus que parece pensar para que serve ser poeta, para ver o Jardim tão espezinhado como os seus confrades foram em vida e depois da Parca os levar.
Passei só entre uma multidão que apenas me transmitiu algo que fazia pior à minha solidão. Sentei-me e fechei um pouco os meus olhos de poeta para imaginar aquilo que a minha alma procura e se desilude por tanta pobreza, iniquidade, solidão e falta de sensibilidade. E ao fechar os olhos vi-me no Parnaso, lugar consagrado a Apolo e ás Musas, julguei-me Afrodite, julguei que era uma deusa perdida no meio dos mortais. Mas voltei à realidade e embora respirando o luxuriante da vegetação não consegui ignorar o retiro daqueles que nada têm, nem sequer a poesia para lhes lavar a alma de tantos e tantos sofrimentos.
Regressei a casa com o corpo refrescado pela sombra das árvores e pelo murmúrio água correndo em catadupas da boca de Neptuno, mas com o meu coração febril e ansioso por me lembrar de outros tempos que foram um Paraíso, comparados com tanta miséria à nossa volta.
Poesia, desce sobre mim com a tua dulcíssima e melodiosa voz e dá-me sempre aquela força que eu não quero perder. Obrigada por existires em mim.
 
                                                                                            América Miranda
 
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VENDAVAIS DA ALMA
 
S. Pedro do Sul, Agosto de 2009
 
               Após imensa trovoada e forte ventania a chuva cai em catadupas para lavar as almas solitárias e infelizes. Se fosse pintora pegava nos meus pincéis para retratar a beleza da tempestade, as árvores de tronco curvado encimadas de uma folhagem de cobertura espessa. De quando em vez há folhas mortas no chão, formando montículos de onde exala um cheiro forte e húmido.
Fixo o olhar de Jesus na mesa da minha cabeceira, com a Sua figura toda doçura e pureza e também amo toda a melancolia deste ar carregado.
De igual modo contemplo longamente o sorriso ímpar do meu querido amigo, marido e companheiro, no retrato que sempre me acompanha quando me ausento de casa.
Recordo aquele amor grandioso que me faz doer a alma por já não o ter e regressando à realidade quero que a minha alegria esfusiante venha tornar menos penosa a melancolia e solidão. Contemplo o anilado do céu, agora um pouco nublado e sei que aquele amor que eu vivi empalideceu todas as claridades da terra e sinto ainda toda a exuberância de vida que havia à nossa volta.
A meus pés vejo a folhagem verde, do verde Vouga, dum lindo verde profundo e sombreado, acarinhado pela cúpula interminável dum céu azul acinzentado vestido de suaves nuvens. É quase fim de tarde e eu no Outono da minha vida sinto ainda florescer a Primavera no meu coração.
 
                                                                                           América Miranda
 
 
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MEU VOUGA
 
S. Pedro do Sul, Agosto de 2009
 
            Meu rio Vouga, meu amante silencioso que bem fazes à minh' alma algo torturada pelos desencontros de que ela é composta.
Através da magia da varanda do meu quarto por vezes contemplo os últimos clarões das tardes agonizantes, noto a agitação dos leques dos teus arvoredos, o fremir das leves mimosas e o movimento dançarino das folhas verdes a que a viração da tarde empresta um pouco de vida. Vem a hora do crepúsculo, hora comunicativa para a minha melancolia.
Por vezes olho as pessoas que me rodeiam cujos olhos tristes são da cor das folhas amareladas que o Outono arranca dos ramos onde a seiva adormeceu. E eu, embora melancólica, porque procuro algo que eu não sei definir e não encontro, mas gosto de gargalhar e dar alegria aos que não sabem sequer esboçar um sorriso.
Ao entardecer, aquela triste hora do morrer do dia, meu olhar procura os últimos reflexos do dia sobre a folhagem das árvores, a que o fim de tarde dá por vezes um tom acinzentado. O sol, este astro que aquece o meu coração, por vezes ao entardecer deixa morrer os seus raios nos picos das serranias.
O dia quente faz-me imaginar olhos negros e lábios dum rubro vivo com um sorriso esboçado. Também o profundo de olhos azuis e o aveludado de um rosto de linhas perfeitas. Este meu rio Vouga tem por vezes as brumas dos lagos que mantêm a atmosfera nublada. Apetece-me ouvir a voz plangente dos sinos, onde o menor raio de sol origina cintilações de ouro.
Como gosto de estar aqui meu Vouga, adoçar a minha existência e iluminar o meu ser com clarões de alegria. O verde das tuas águas são esmeraldas à volta dos diamantes que rodeiam meu coração.
Meu rio de encanto vou estender-me na tua relva e beijar o teu leito e assim ficarei a sonhar de que não estou só e que amo a vida com toda a força telúrica de que sou feita e que tu serás sempre o meu rio muito amado.
 
 
                                                                                  América Miranda

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